Associação Nova Vida
Freqüentemente, os
familiares de dependentes nos questionam quando falamos
na doença familiar; o "doente" é o que bebe
ou usa outras drogas, alegam, por vezes zangados; não
são eles os dependentes químicos! À primeira vista,
isto parece fazer sentido. Mas se analisarmos a coisa do
seu princípio, podemos chegar a conclusões bastante
doloridas, mas necessárias para uma vida melhor.
Poucos de nós aceitamos
facilmente a idéia de sermos doentes. Ainda temos
preconceitos quanto ao termo "doente", a ponto
de ser uma ofensa dizer "Você é doente!"
Todos queremos ser saudáveis, principalmente do ponto de
vista emocional: não queremos ser
"complicados", "neuróticos",
"nervosos", "problemáticos"... No
entanto, dentro da Psicologia, a Saúde está em
reconhecer a própria doença. Ninguém é totalmente
são do ponto de vista emocional, e não aceitar as
próprias fraquezas e limitações inerentes a todo ser
humano é doentio.
Emocionalmente, a coisa
funciona assim: não podemos voar. A pessoa que acha que
pode voar é reconhecidamente doente. Ninguém diria que
um indivíduo que bate os braços na rua tentando
levantar vôo é "normal", não? No entanto,
uma verdade tão absoluta quanto "Seres humanos não
podem voar por si sós" é a de que nenhum ser
humano deixa de ter seus problemas emocionais. Ou seja,
não reconhecer a própria limitação emocional é a
doença emocional mais grave.
Uma doença é uma
característica na forma ou na função, física ou
mental, que provoca sofrimento, limitação não-usual,
ou risco.
Dificilmente, encontramos
alguém que tenha pai ou mãe, filho ou filha, irmão ou
irmã, esposo ou esposa dependente, que negue que a
doença do familiar lhe provoque sofrimento.
Freqüentemente, os familiares reclamam de nervosismo,
preocupação, medo, vergonha, preocupação,
insegurança etc. etc. advindos do comportamento do
dependente. Somente o sofrimento já define a doença do
familiar. Mas há ainda mais...
Por sua necessidade de
manter sempre a droga por perto, o dependente constrói,
em sua doença, defesas inconscientes e conscientes para
manter sua doença. Assim, por exemplo, ele usa as
seguintes defesas inconscientes:
Conscientemente, o paciente
dependente manipula, ou seja, usa os sentimentos, fraquezas,
características dos outros, para conseguir que os outros façam
o que ele quer e não façam o que ele não quer. Faz chantagem
emocional, se faz de vítima, provoca pena. Torna-se sedutor,
buscando agradar os outros, elogiá-los, lisonjeá-los. Usa o
medo e inseguranças dos outros, ameaçando-os velada ou
abertamente. Barganha, negocia, faz pactos e promessas que não
cumpre.
Expostos às defesas e
manipulações do dependente, os familiares acabam
contra-defendendo e contra-manipulando... O que quer dizer que
fazem a mesma coisa que o dependente. Alguns exemplos:
NEGAÇÃO: "Meu marido não
é alcoolista, ele só exagera às vezes. Precisa ver, quando ele
não bebe, é um homem tão bom...". Isto quando a senhora
não se lembra da última vez que seu marido estava sóbrio.
PROJEÇÃO: "Meu único
problema é que o João usa drogas; se ele não tivesse esse
problema, todos lá em casa seriam felizes".
RACIONALIZAÇÃO E
JUSTIFICAÇÃO: "Ele bebe porque foi uma criança muito
infeliz"; "Ninguém pode culpá-lo por fazer uma farra
no dia do pagamento!".
MANIPULAÇÃO: "João, se
você não parar de usar drogas, eu me mato!", "Doutor,
seja camarada, interne o João!"
.Somente pelos exemplos, vemos
que o familiar, ou co-dependente, também necessita remontar sua
vida. Enquanto o dependente deve deixar qualquer comportamento
que lhe cause risco de recorrência, o mesmo para o
co-dependente. O dependente deve deixar de viver sua vida em
função da droga, e o co-dependente, deixar de viver sua vida em
função do dependente e de sua doença. O dependente deve
eliminar a culpa inútil, e traduzí-la em arrependimento sólido
que traga mudança de atitude; o mesmo para o familiar.
.Pela negação e pela baixa
auto-estima, o dependente acaba em um estado de falsa
onipotência: ele pode controlar a droga, ele é superior aos
outros, ele pode tudo... A onipotência também será uma frente
a ser atacada no tratamento do familiar: enquanto o dependente
deve aceitar que é impotente frente a droga, o familiar também
deve aceitar que é impotente perante a doença do dependente, e
que somente pode mudar sua atitude e comportamento, não o do
dependente. A tendência de ambos de se verem como vítimas ou
heróis tem que ser combatida, ou o orgulho lhes impedirá de
verem o que é preciso mudar.
A vida da dependência faz o
paciente perder a auto-disciplina, com exceção das tarefas
relacionadas a conseguir a droga. O familiar, por sua vez, ao ser
envolvido na doença emocional do dependente, também tem
dificuldades de auto-disciplina, relacionada à sua postura
frente ao dependente. O limite é parte importante do tratamento
do dependente e de seus familiares.
O limite é uma fronteira, entre
a minha liberdade, e a liberdade do próximo. É algo tão
simples como estabelecer o que posso fazer, e o que não posso; o
que vou fazer, e o que eu não vou; o que vou aceitar, e o que
não vou; o que posso esperar, e o que não posso.
O limite somente pode ser dado a
si mesmo. Ninguém pode esperar fazer com que as pessoas façam o
que é desejado delas. Não se pode forçar ninguém a mudar sua
conduta. O que podemos fazer é mudar nossa conduta.
.Suponha que seu chefe não
queira que você chegue atrasado ao serviço. Ele pode
ameaçá-lo, estrebuchar, brigar, arrancar os cabelos, se
desesperar, ter crises de choro, fazer chantagem emocional...
que, se você realmente não quiser chegar na hora, você não
chega. É sua prerrogativa determinar o que faz. A única coisa
que seu chefe pode fazer é estabelecer as regras, e dizer,
"Não tolero funcionários que cheguem freqüentemente
atrasados!" Só que, então, ele terá que colocar limite em
si mesmo: se ele reconhece que não pode forçá-lo a chegar no
horário, saberá que somente pode determinar que não mais se
angustiará com seus atrasos, e que o demitirá se a situação
continuar. Esta regra apresentada a você, você pode decidir
chegar na hora, ou sofrer a conseqüência de seus atrasos, a
demissão. No entanto, a auto-disciplina de seu chefe em
relação ao seu caso é fundamental: se ele se permite ameaçar,
e nunca cumprir sua promessa de castigo... você continua a
chegar atrasado, e não é demitido.
As pessoas se acostumam a encarar
limites como uma coisa desfavorável. No entanto, se observamos
as crianças, percebemos que o ser humano tem necessidade de
saber os limites de outras pessoas para segurança.
Freqüentemente, uma criança testa os limites de seus pais,
simplesmente para se sentir segura em um ambiente de regras
precisas. Nós adultos somos crianças crescidas, e tendemos a
fazer a mesma coisa. Os pais que se abstêm de fornecer limites
para seus filhos estão preparando a infelicidade destes e a sua
própria.
O familiar encontrará uma
necessidade premente de auto-disciplina para cumprir aquilo que
ele mesmo estabeleceu para si mesmo. Ele não pode, por exemplo,
forçar seu filho a deixar de andar em más companhias, ou de
usar drogas, ou de gazear aulas; pode, isto sim, estabelecer o
que fará se seu filho andar em más companhias, ou usar drogas,
ou gazear aulas. E, se estabelecer que não irá aceitar estes
comportamentos em um filho que está em casa, se chegar a hora de
cumprir sua ameaça, deverá fazê-lo, mesmo que isto lhe doa.
Dentro do limite, também está
incluso saber a própria capacidade de impor limites a si mesmo,
e a cumprí-los.
O familiar, muitas vezes, acaba
superprotegendo o dependente. Este tipo de comportamento é um
exemplo de como o familiar terá que desenvolver sua
auto-disciplina.
Para que qualquer pessoa possa
ser feliz, seja dependente, seja familiar de dependente, ou não
tenha nenhuma relação com a dependência química, precisa
saber respeitar os limites dos outros e os seus próprios.
Os familiares de dependentes
podem procurar ajuda, suporte e orientação de várias fontes. A
exemplo dos dependentes, o enfoque grupal também é importante.
Alguns recursos certamente encontráveis em sua região são:
| Informações sobre as diversas drogas causadoras de dependência | |
| Informações sobre as doenças de dependência e seu tratamento |
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| Informações sobre o principal objetivo da Associação | |
| Informações sobre nossa Associação | |
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Última atualização desta página: 29/08/99